PUBLICAÇÕES

A solidão de Emily Dickson

A mais abissal solidão
não foi a de Noé,
em sua arca,
quando só havia
a treva
em toda a terra.

Mais espantosa solidão
foi a de Emily Dickison
na fazendola de seus pais,
nos confins da Inglaterra
- de onde jamais saiu,
a não ser para ver morrer
parentes e vizinhos.

No inverno de sua desesperança
sentia-se, como Noé,
sozinha no mundo.
Sequer moveu-a a fé
no reino das palavras: não
escreveu para que a amassem
nem escrevia porque
amasse alguém.

 

A cabana do escritor

Há muitos anos adquiri uma terra perto das montanhas. É um lugar isolado e rústico, só se chega de carro traçado. Não foi um negócio muito vantajoso, eu sei, mas eu precisava receber meus honorários de um cliente mau pagador. Foi preciso executar a dívida na Justiça para forçá-lo a vir num acordo. 
Fui advogado dele num divórcio litiogioso e bem trabalhoso. A história é sempre a mesma: enquanto se precisa do advogado, ele é seu guardião e amigo; depois que se consegue o intento, ele é seu maior inimigo. Por sorte eu tinha um contrato e o executei. Depois de muitas idas e vindas, para findar a questão que já me dava nos nervos, ele me ofereceu essa terra que falei. Aceitei para não ficar no prejuízo, mas nunca fui lá.
No ano passado, um amigo me convidou para fazermos um safári fotográfico e então me lembrei daquele sítio meu lá nas lonjuras infinitas. Quando chegamos, notei que não era lá tão longe assim. Na verdade, ficava a quarenta minutos da pequena cidade onde moro. Fiquei surpreso e alegre. Talvez não tivesse sido um negócio assim tal mau.

 

A dignidade e a truculência


Que estranha quinta-feira, essa de 23 de abril de 2015! Aniversário de meu irmão Edmar, data consagrada ao Santo da minha devoção, Jorge da Capadócia, reunião ordinária da Academia Goiana de Letras e uma lista grande de eventos culturais, com ênfase para o lançamento da revista Raízes Jornalismo Cultural (de Clara Dawn e Doracino Naves) e do livro Otávio Lage – Empreendedor, Político, Inovador (do jornalista e escritor Jales Naves.

Amigos meus no foco das festas, sim, para minha alegria. Mas o noticiário pelo rádio do carro deu-me conta do espancamento de professores dentro do Paço Municipal de Goiânia.

Sim, leitores e amigos de outras plagas, no Paço Municipal de Goiânia! O goianiense, nativo ou adventício, sabe, sobejamente, que estes tempos não são bons para a capital de Goiás e muito menos para os seus funcionários da Saúde e da Educação (nem para os demais porque a gestão que vivemos é deplorável). A Guarda de Sua Excelência o prefeito de Goiânia aplicou com rigor e perfeição gás-de-pimenta e cassetete no professorado que tentava ser ouvido. Mas as “otoridades” do Paço preferiram alegar que a visita não fora agendada, daí a “repressão” aos que insistiam.

 

A fuga da moça

Quem visse Margarida naquele cavalgar solitário na praia jamais suporia que ela fugia do noivado arranjado. Ela saiu nos primeiros raios do sol, ainda sem rumo certo, e levava consigo apenas a obstinação de não se deixar servir de moeda de troca política. A abolição da Escravatura atingira a família Fonseca do Amaral em cheio e agora o coronel Ernesto, pai da fujona, via na filha a única saída para seus problemas financeiros.
Com esse pensamento, prometera Ernesto que Margarida se casaria com o coronel Marivaldo de Castro, rico exportador do Ceará. E deslocaram-se pai e filha, do sertão de Goiás até a cidade de Cascavel. Acontece que Margarida viu o velho Marivaldo e se revoltou.

 

Macaco que põe a mão em cumbuca...

 Tive uma professora, no último ano de ginásio (1961), que ensinava Geografia. É bem provável que eu tenha escolhido essa matéria, quando decidi que deveria ser professor, por influência dela – Dona Umbelina, uma jovem preta e linda, puro sorriso e autoridade! Envolvia-nos com sua presença, sua fala e seus conceitos, ensinava por mapas e versos, por falar e exemplos – uns citados, outros demonstrados por suas próprias atitudes.

Dona Umbelina é uma linda mulher, ainda. Imagino-a na casa dos 80 anos – visto que eu próprio libero-me do voto obrigatório no próximo setembro – e vivi, há menos de uma década, a felicidade de um reencontro (fui visitá-la em seu apartamento, no Leme). Ouvi – melhor dizendo, re-ouvi – preciosidades de sua lavra, sobretudo no que concerne aos processos educacionais. Ela entende profundamente de pedagogia, viaja por conhecimentos fartos fora de sua formação universitária (é capaz de ensinar Português e Matemática, Química e Física e outras disciplinas), como fazia, ainda, no velho casarão do Grajaú (região da Tijuca), herdade do pai, o marechal João Batista de Mattos, que conheci por indicação dela, nesse mesmo casarão. Nesse casarão histórico, a mestre de milhares de alunos saudosos, espalhados pelo Brasil todo e alguns pontos esparsos do mundo reunia estudantes carentes, preparando-os para exames regulares, para concursos e vestibulares etc.

 

Imagens da Semana Santa

Além de advogado e escritor também sou fotógrafo. Moro na histórica cidade de Pirenópolis, Goiás, onde a Semana Santa é um evento cultural rico em folclore. Com minha Nikon saí pelas tortuosas ruas de pedras da cidade à cata das procissões e dos teatros a céu aberto. Fiz centenas de registros que infelizmente não cabem no espaço desta postagem. Então selecionei as que considero mais condizentes com a finalidade do site.
No calendário de festas de Pirenópolis, cinquenta dias após o Domingo de Páscoa comemora-se a Celebração de Pentecostes e com ela a colorida Festa do Divino Espírito Santo, que vem com congadas, cavalhadas, teatros, cortejos etc. Explico isso para falar das fotos que mostram a coroa do imperador e também a tocata da banda na lateral da igreja Matriz.
Adriano Curado
Boa viagem pelas imagens:

 

Pirenópolis, um paraíso no coração do Brasil

Turismo na cidade contribui como mais uma fonte de renda para as famílias que optaram por viver no local. Pousadas, restaurantes, eventos anuais e outras várias opções possíveis de negócios na região reforçam os ganhos.


Wandell Seixas Da editoria de Economia

Com mais de 80 cachoeiras catalogadas e com um calendário cheio de eventos culturais durante todos os meses do ano, Pirenópolis recebe cerca de 500 mil turistas anualmente. Em pesquisa realizada pela Goiás Turismo, em 2014, foi revelado que 98% dos turistas que visitam Pirenópolis, a 120 quilômetros de Goiânia, pretendem voltar ao município, sendo que 64% dos entrevistados afirmam que as expectativas em relação ao destino turístico foram plenamente atendidas.

Para 21% deles, as expectativas foram superadas. A maioria dos visitantes (56%) reside em Brasília, seguidos por visitantes de Goiânia (23%) e Anápolis (7%). O principal motivo da viagem a Pirenópolis para 91% dos entrevistados é o lazer. O estudo mostra que, entre os que procuram o destino para lazer, 63% estão interessados no ecoturismo, 29% na cultura local e 6% no descanso. Em relação à faixa etária, a maioria tem entre 32 e 50 anos (53%), 19% entre 25 e 31 anos, 12% entre 18 e 24 anos, 11% entre 51 e 59 anos e 5% acima de 60 anos.

Em relação à escolaridade, 59% dos turistas afirmaram ter pós-graduação. A pesquisa mostra ainda que a renda mensal individual é superior a oito salários mínimos para 41% dos entrevistados, 19% ganham entre quatro e seis salários mínimos, 16% entre dois e quatro, 14% entre seis e oito e 9% até dois salários mínimos. Entre os que foram abordados pela equipe técnica da Diretoria de Pesquisas Turísticas da Goiás Turismo, 39% são casais sem filhos e 29%, grupo familiar.

 

A brevidade da vida

Qual o sentido da vida? Hoje estamos aqui mas amanhã não mais estaremos. E o que restará de nós depois da partida? Será que seremos lembrados por quanto tempo ainda?

E é com base nessas perguntas que eu constantemente me indago se faço a coisa certa, se não desperdiço tempo com futilidades, inutilidades, vaidades sem propósito. Porque o tempo é algo que não volta nunca mais, ser efêmero a se esvair com muita rapidez.

Há tantos projetos de vida que eu paralisei na espera de dias melhores! Mas esses dias talvez nem cheguem. Pode ser que tudo isso seja uma ilusão muito grande e eu descubra nos instantes derradeiros o quanto fui tolo. Perdido neste emaranhado de teias tecidas por meus próprios medos e vacilos, sigo amoitado neste labirinto do fauno, ou será do minotauro?

 

A família de Felipe

Foi com a chegada do inverno que João se mudou para a cidade. Viera transferido pela empresa de engenharia que construiria parte do porto. Ele era um engenheiro muito requisitado e competente, por isso não teve dificuldade de se encaixar no mercado, quando finalmente o porto foi inaugurado e a empresa partiu.
Morava ele bem próximo de Alice, uma moça meiga e alegre, filha de seu novo chefe. Começaram a sair e se descobriram com mais afinidade que supunham. E depois de seis meses de intenso relacionamento, finalmente veio o casamento. O sogro ficou satisfeito, deu-lhe uma promoção, fez questão de comprar uma casa nova para os recém-casados. Também não tardaram a encomendar um herdeiro - Felipe.
E por cinco anos aquela família viveu em constante harmonia e paz. João prosperou tanto profissionalmente que deixou o sogro e montou escritório próprio, contratou gente, ampliou as instalações. 

 

Um gatuno na soçaite

 Oh, vida! Nestes meses e dias em que tanto se discute a penalidade ante vários crimes – vivemos sob o signo de mensalão, petrolão e as mazelas do tráfico de drogas e do desvio sistemático de verbas públicas – e se fala também na falácia da redução da maioridade penal, um fato prosaico me convence de que a índole da desonestidade é, de fato, uma marca do DNA humano de qualquer origem, de qualquer faixa etária, de qualquer segmento socioeconômico ou profissional.

A gente cresce sob a constelação dos valores humanos, da estratificação social: na minha infância e até mesmo na adolescência, as pessoas eram rotuladas, para o bem, de meninas de família, pais e mães (de família, também), pessoas de fino trato, estudantes (sim, a escolaridade era um status tão elevado e caro que alguém numa escola tinha a etiqueta dos “de-bem”), profissionais liberais, empregados de grandes empresas – e por aí seguia a escala de valores.

Nos primeiros anos da década de 60, com o pós-guerra se fazendo sentir, surgiram a conquista espacial, os rádios a pilha, o tergal e o banlon (e as saias plissadas), as calças muito justas e a minissaia... Em breve, os homens começariam a usar cores que não fossem somente branco, preto e cinza. Surgiu a pílula contra a concepção, as motonetas infestavam as ruas, as moças libertavam-se, aos poucos, do tabu da virgindade etc. e tal.

 

Perdido no meio da rua

Numa hora dessas, há 51 anos, eu estava desesperado, sem rumo. Começava a viver o pesadelo da ditadura militar que narcou minha vida e meu cinema. Tive que sair da casa do estudante politécnico e nao sabia para onde ir. Isso está em meu livro PERDIDO NO MEIO DA RUA, editado anos depois com textos de ficção escritos naqueles primeiros anos, desde o golpe e que revelavam a dolorosa perda de minha utopia. Aprendi a recusar tido tipo de ditadura, de qualquer matiz.

Acadêmico João Batista de Andrade

 

A Sociedade - de Meia Ponte a Pirenópolis

O transcorrer do tempo é algo fascinante e assustador. Quando vivemos em uma cidade muito antiga, como Pirenópolis, é possível notar mais claramente as mudanças temporais.
Imagine como era diferente o modo de vida dos meiapontenses quando por aqui os garimpeiros ainda extraíam ouro. Pense que grupos de milhares de escravos perambulavam seminus pelas ruas, o barulho dos chicotes no ar, a gritaria dos feitores; chiavam as rodas dos carros de bois que transportavam aroeiras para a construção dos casarões; o leito e o barranco do rio eram revirados cada vez mais fundo à procura do metal dourado. Os cativos tinham que laborar nas minas de sol a sol, construir os casarões, os templos, os muros.
Descansavam no domingo da labuta dos brancos, quando alguns tinham permissão para cuidar da própria vida, como plantar a própria roça; outros eram autorizados a trabalhar na edificação da Igreja dos Pretos, a vender quinquilharias nas ruas de Meia Ponte etc. Mas a grande maioria ficava mesmo trancafiada nas senzalas escuras e pouco arejadas, acorrentados a troncos ou vigiados permanentemente.

 

Novos Acadêmicos

Na Assembleia Geral realizada no dia 28.08.2015, foram eleitos quatro novos Membros Efetivos para a composição da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música. A ordem ficou a seguinte:
Cadeira n° VI – Patrono: Francisco Inácio da Luz, Acadêmico José Joaquim do Nascimento.
Cadeira n° XV – Patrono: Ermano da Conceição, Acadêmica Aline Santana Lôbo

Cadeira n° XXII – Patrono: José Luiz de Campos Curado, Acadêmico João Guilherme da Trindade Curado
Cadeira n° XXVI – Patrono: Urbano do Couto Menezes, Acadêmica Tereza Carolini Lôbo.
A posse será possivelmente no dia 18.04.2015, no Teatro Sebastião Pompeu de Pina.

 

O mendigo Barnabé

Seu nome era Barnabé e ele vivia ali pelas ruas da cidade. Era mendigo, pedinte, desabrigado. Só sobrevivia pela caridade cristã e pelo desprendimento de muitos. Não conversava quase nada, e às vezes era preciso indagar se estava com fome. Sempre magro, sujo, barba e cabelo grisalhos e longos. Pés no chão, mãos de unhas grandes. Ajoelhava-se de costas para a parede e descansava as mãos na testa, como se estivesse em profundo transe.
Eu me preocupava com Barnabé porque ele me viu crescer. Sempre gentil e amoroso, colhia frutinha no mato e levava de presente para nós. Quando mais moço, ajudava nas tarefas domésticas tipo varrer quintal ou capinar a calçada. Depois que envelheceu deixou até esses afazeres e vivia em constante perambulação pelas ruas e praças.
O mais interessante em Barnabé é que não aparentava qualquer doença mental. Sabia ler e escrever muito bem e fazia cálculos de matemática de cabeça. Mamãe me contou que ele aparecera certo dia na casa de vovô. Parecia um foragido. Nunca disse de onde veio e nem os motivos de ficar por aqui. Nós também nunca indagamos nada dele.

 

O Sesc e a homenagem a José Veiga

 Sejam tolerantes, queridos leitores! Volto a falar do centenário de José J. Veiga – ou seja, dos eventos que se desenvolvem em torno do magnífico e virtuoso romancista, novelista e contista brasileiro de projeção internacional. Para nós (goianos), é o menino que deixou Corumbá de Goiás para morar na capital (a antiga Goiás) aos 12 anos; aos 20, num “especial” (um automóvel fretado), chegou a Leopoldo de Bulhões (que era, então, o fim da linha) e tomou um trem para o Rio de Janeiro, onde viveu até 1999, com um intervalo de cinco anos em Londres.

Desta vez foi no Sesc Centro, em seu novo prédio da Rua 15, onde temos o Teatro e a Biblioteca. Ali ouvimos belíssima palestra do consagrado Ignacio de Loyola Brandão, que contou de seus dois encontros com José e do processo criativo. Deliciei-me! Loyola Brandão sabe das coisas... ele não viajou na história de que entre José e Veiga havia Jacinto Pereira (respectivamente, o nome do meio de seu pai e o nome de solteira de sua mãe). O jota-ponto foi sugerido por João Guimarães Rosa – amigo de José – por conta de melhor sonoridade e – isso o próprio Zé me contou – por uma questão de equilíbrio numerológico.

 

Liberdade ainda que tardia

Durante doze anos, Paulo ficou preso por um crime que não cometeu. O processo foi longo e tendencioso. O juiz não apreciou as argumentações da defesa com a devida atenção, só lhe interessava ouvir as vozes da multidão que clamavam por justiça. E o resultado foi uma pena de vinte anos de reclusão em regime fechado.
Mês passado, no entanto, o verdadeiro criminoso se entregou à polícia. Confessou que fora ele, na verdade, que violentou e matou a vítima, uma jovem que aguardava o ônibus. Confessou porque estava com tumores generalizados pelo corpo, sem qualquer expectativa de sobrevivência. E para provar que falava a verdade, entregou à polícia uma peça íntima da vítima que guardara como suvenir. 
Morreu o monstro há dois dias. E Paulo, mesmo com a confissão do verdadeiro bandido, demorou ainda a ser posto em liberdade. Ou seja, a morte chegou primeiro que a sentença absolutória. Mas o que interessa é que agora, depois de tudo que passou na prisão, e os estupradores não são bem tratados ali. Paulo está livre.

 

Resgate da memória de um ícone literário

 A Literatura Brasileira é riquíssima, posto que nem todos saibam ou mesmo admitam. Contudo, é pouco divulgada pelos grandes veículos de comunicação. Pudera! Vivemos em um país de dimensões continentais e só muito recentemente passamos a contar com a internet, que nos aproxima e nos permite nos informarmos adequadamente sobre personalidades (e grandes escritores) fora de nosso âmbito doméstico. Principalmente os que são justamente reverenciados em seus respectivos Estados de origem, mas ignorados no eixo Rio-São Paulo.

Graças à rede mundial de computadores pude “remendar”, recentemente, minha olímpica ignorância a propósito de ases das letras não tão divulgados por aqui, embora alguns contem até com projeção internacional. É o caso do jornalista e escritor goiano José Veiga – que assinava seus trabalhos literários (e seus livros) como José J. Veiga – nascido em Corumbá de Goiás em 2 de fevereiro de 1915 e que faria, portanto, cem anos amanhã, caso estivesse vivo. Infelizmente não está. Faleceu, em 19 de setembro de 1999, no Rio de Janeiro, em conseqüência de câncer no pâncreas e complicações causadas por anemia.

 

Os últimos dias de Márcia

Quando Márcia foi diagnosticada com um tipo raro de leucemia, o médico lhe deu a opção de começar um tratamento doloroso e sem certeza de resultado, ou ser medicada para viver bem as duas semanas finais. Muita gente, diante de uma encruzilhada dessa, optaria pelo tratamento. Afinal, é melhor uma esperança, por menor que seja, que a certeza da morte. Mas Márcia quis viver plenamente seus quinze dias restantes.
Ela era uma arquiteta solteira na cidade grande. Trabalhava doze horas por dia para manter as prestações do apartamento luxuoso e do carro. Mas agora não precisava de nada daquilo. Então vendeu seus pertences e saiu por aí para concluir os planos há tanto adiados. Seu primeiro encontro foi com o mar. Longo vestido branco ao sabor da brisa, braços abertos como se pudesse voar, liberdade absoluta e sem retorno.

 

Exemplo e motivação

 No começo da semana, dia 9, o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás promoveu o primeiro evento de homenagem a grandes goianos centenários, com Gilberto Mendonça Teles discorrendo sobre José J. Veiga, para o deleite dos amigos, dos leitores e de estudiosos da obra do grande contista goiano, o único dentre nós que transpôs fronteiras, conquistando a exigente Europa.

 A Academia Goiana de Letras já elaborou um calendário em torno de pelo menos quatro destes – José J. Veiga, Eli Brasiliense, Bernardo Élis e Carmo Bernardes (o IHGG inclui outras pessoas, todas elas integrantes, em vida, dos quadros daquele Instituto) – e os reverenciará no decorrer de 2015. Também a Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música (APLAM) já anunciou homenagens aos quatro grandes escribas, que, coincidentemente, têm passagens pela histórica cidade.

No momento em que me dispunha a traçar estas linhas, vejo uma chamada do Jornal Hoje, da Rede Globo, dando conta de que o técnico Dunga convocou o Furacão da Copa (de 1970), o imortal atleta Jairzinho, a participar de sua equipe. E o inesquecível ídolo da melhor de todas as Seleções do Mundo em todos os tempos, na grandeza de sua simplicidade, justifica: “Ele me quer como fator de estímulo e motivação”.

Emocionei-me!

 

DM, 35 anos!

 Nestes tempos de concentração total nas telinhas dos tais “ismartefones” – isso que já foi telefone e hoje serve para acessar Internet, localizar-se geograficamente, trocar mensagens e imagens, fazer compras e consultas e, em breve, servirá até para exames clinico-laboratoriais... – e do total descaso para com o próximo, paramos para festejar os 35 anos do DM, um jornal analógico, em papel e tinta, vendido em bancas...

Ora: hoje ninguém mais se concentra – foca! (do verbo focar; como substantivo, trata-se de um mamífero da região Ártica e, na gíria jornalística, o aprendiz de jornalismo, o repórter em primeiro emprego ou, para usar a expressão da moda, o estagiário). Hoje, ninguém mais se lixa (se liga, diríamos antes) para o próximo, mesmo que o tal de próximo seja a mãe.Mas é aniversário do Diário da Manhã, o nosso DM, jornal diário que chegou às bancas e aos jornaleiros (existiram, um dia) no dia 12 de março de 1980. A cidade encheu-se, dias antes, de painéis (já eram chamados de outdoors) com fotos de alguns dos nossos. A minha cara não apareceu naquele imenso cartaz, pois quando foi concebido eu ainda integrava a equipe do Cinco de Março. E acompanhei Marco Antônio Silva Lemos do CMpara o DM, na Editoria de Política - fiquei por conta da Câmara de Goiânia.

Convite


 

De volta ao colégio

Foi com grande prazer que aceitei o convite das professoras Aline Santana Lôbo e Ana Caroline Lôbo para participar de uma palestra em Pirenópolis, Goiás. Elas são do corpo docente do Colégio Estadual Comendador Christovam de Oliveira, nome pomposo demais e que o pirenopolino preferiu atalhar com um apelido: Ginásio. A interessante iniciativa do projeto visa a troca de experiência entre ex e atuais alunos.

 Sim, fui aluno do Ginásio, onde cursei o primeiro e o segundo grau (hoje ensino fundamental). Aliás, sempre estudei nas escolas públicas de Pirenópolis, e tive excelentes professores que não nomearei por medo de injustiças. O “jardim da infância” fiz no antigo Colégio das Freiras (hoje Aldeia da Paz), era um preparativo para o primeiro ano, que iniciei no Santo Agostinho, educandário sediado no extinto salão paroquial, na praça Central. Depois fui para o Comendador Joaquim Alves de Oliveira, na mesma praça e em frente da minha casa. Em seguida ingressei no primeiro grau e depois no segundo, ambos no Ginásio.

Esta semana, quando cheguei ao colégio, fui surpreendido pela presença de dezenas de alunos sentados no amplo salão, todos à espera dos palestrantes. Também participaram a jornalista Karla Jaime Moraes e três ex-alunos que se formaram recentemente.

 

Prazer em festejar

 No decurso da semana, ouvi notícias desencontradas sobre o estado de saúde de Fernando Alonso após o acidente que sofreu durante um treino. Diziam que ele despertou sem lembrar-se de sua vida real, isto é, sentia-se como um adolescente que corria de kart e que sonhava ser um piloto de Fórmula 1. No dia seguinte, a notícia era sobre a reação um tanto indignada do atleta, ridicularizando os dois jornais que divulgaram tal versão.

Perfeitamente normal, a brabeza do campeão. Quem gosta de ser considerado sem-memória? Isso de se perder no tempo deve ser igual a estar no meio do mato sem saber das referências para se sair dali. É indispensável a consciência de nossa história e do espaço geográfico.

Há algum tempo, uma senhora mal-humorada publicou no Facebook algo parecido com isso: “Amanhã é meu aniversário. Não me deem parabéns, eu não fiz nada, não realizei nada, apenas me desejem feliz aniversário porque dar parabéns em aniversário é burrice”. Fiquei a imaginar... E viajei num espaço que só eu conheço, um misto de memória e imaginação, buscando saber como teriam sido as tais festas pagãs da antiguidade – essas que nos deram o Carnaval, a Páscoa, o Natal... Sei que elas se ligavam à geografia e ao registro temporal dos antigos, que essas festas associavam-se às mudanças de estações (os solstícios e equinócios).

 

A arte é um dom familiar

A semelhança entre obras da mesma família marca uma trajetória de produção. Joaquim Pompeu de Pina, irmão do meu avô paterno, produzia quadros entalhando casca de árvores e pintando telas.

Quando comecei a produzir quadros, optei pela madeira por ter tamanhos diversos, não padronizados e pequenos, o que reduziria o tempo de produção. Com o passar dos anos, o processo criativo pediu suportes em dimensões maiores, levando-me a pintar telas.

As pessoas me perguntavam o que eu era de Joaquim Pompeu, devido à semelhança dos traços e temas, e eu as respondia: “ele era meu tio avô”, sem saber o porquê de tal comparação.

 

Pronunciamento da presidente

Não se sabe quando ela é mais perigosa – se quando finge acreditar naquilo que está falando, ou se quando de fato acredita ferrenhamente no que está a dizer. Assim falou Elio Gaspari sobre o temperamento da soberana que está a lançar o Brasil e os brasileiros em uma tempestade perfeita.
No programa Globo News Painel exibido ontem analistas de risco e dirigentes de agências de análise de mercado deixaram isto bem afirmado.
Dilma Roussef é incorrigível, não tem humildade para emendar, corrigir os erros de visão, as práticas equivocadas de governo, provocadas pelo viés esquerdizante, estatizante e paralisador da economia, que foi a tendência e o saldo deixado por seu primeiro mandato.

 

A moça no terraço

Eu conheci de vista a moça que morreu. Ela aparecia no terraço do prédio em frente ao meu. Ia sempre descalça, vestidos curtos, cabelos presos. Caminhava por lá ao entardecer, fumava um cigarro, olhava enigmaticamente para baixo. Não era raro se arriscar um pouco mais nas beiradas do abismo.
Achei que fosse apenas uma solidão que se expressa, uma artista em busca de melhor inspiração ou mesmo alguém que desejava encontrar algo distante.
Nunca imaginei que um dia ela pularia de lá. Alguém chegou a cogitar a hipótese de que a empurraram, mas eu sei que não foi isso porque sempre a via caminhar no lugar da queda. Trocamos olhares algumas vezes, mas seus olhos azuis eram vazios de significado, ausentes de expressão. Acho que nunca me viu realmente. Ela vivia em outro tempo, outro espaço.

 

Nosso Dia da Imprensa

 Hoje é 5 de março, um dia que os legisladores regionais já deviam ter consagrado como o Dia da Imprensa – em Goiás, sim, mas igualmente em todo o Centro-Oeste... E já justifico: neste dia, há 185 anos, circulou pela primeira vez a Matutina Meiapontense (meia-pontense, escreveríamos hoje). Esse veículo de comunicação foi criado em Meia-Ponte (Pirenópolis) pelo comendador Joaquim Alves de Oliveira.

Pois é... 5 de março de 1830! E o novo informativo tornou-se, imediatamente, oficial das províncias de Goiás e Mato Grosso – dois imensos territórios cujos limites constituíram, até a promulgação da Constituição de 1988, o que se convencionou ser a Região Centro-Oeste (com a nova Constituição, o espaço que é hoje o Estado de Tocantins passou a integrar a Região Norte).  O jornal pioneiro circulou até 1834, sendo veiculadas 526 edições, tendo como redator (o que hoje chamaríamos de editor-geral) o padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury, destacado político, religioso e homem de letras que enaltece nossa História, inclusive pela numerosa prole de sobrenomes nobres na genealogia goiana.

Na terça-feira, 3 de março, fui a Brasília. Meu amigo e colega Marco Antônio Silva Lemos (jornalista sob cujas ordens e orientações atuei como repórter no Cinco de Março e no Diário da Manhã) foi empossado desembargador do Distrito Federal e Territórios. Precocemente, ele se aposentou no mesmo cargo do então recém instalado Estado do Amapá, no início da década de 90. Decidiu-se por reiniciar a carreira jurídica, logo após a aposentadoria.

 

Aniversário de 185 anos do Matutina Meyapontense

 No dia 5 de março de 1830, no arraial de Meia Ponte, circulou o primeiro número do jornal Matutina Meyapontense, cujo redator-chefe era o padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury.
Pouco tempo antes, o presidente da província goiana enviou um ofício de solicitação de uma tipográfica para Goiás, mas a petição foi indeferida pelo ministro do Império. Isso era um recado tácito para o povo goiano de que a desenvolvimento local não constatava como prioridade do governo. Foi então que o comendador Joaquim Alves de Oliveira, o homem mais rico da província, comprou com o próprio dinheiro uma tipografia que foi estabelecida em Meia Ponte, onde circulou o Matutina Meyapontense.
O historiador Braz de Pina nos conta que as “lutas contínuas entre brasileiros e portugueses radicados no Brasil deram margem à criação, por Diogo Feijó, da Guarda Nacional. Essa guarda-civil tinha por finalidade defender as fronteiras e as províncias de qualquer levante português. É durante esse período histórico que vai nascer na Província de Goiás o seu primeiro jornal, Matutina Meyapontense.” (1)

 

Ser goiano

Ser goiano é carregar uma tristeza telúrica num coração aberto de sorrisos.  É ser dócil e falante, impetuoso e tímido. É dar uma galinha para não entrar na briga e um nelore para sair dela. É amar o passado, a história, as tradições, sem desprezar o moderno. É ter latifúndio e viver simplório, comer pequi, guariroba, galinhada e feijoada, e não estar nem aí para os pratos de fora.

Ser goiano é saber perder um pedaço de terras para Minas, mas não perder o direito de dizer também uai, este negócio, este trem, quando as palavras se atropelam no caminho da imaginação.

O goiano da gema vive na cidade com um carro-de-boi cantando na memória. Acredita na panela cheia, mesmo quando a refeição se resume em abobrinha e quiabo. Lê poemas de Cora Coralina e sente-se na eterna juventude.

Ser goiano é saber cantar música caipira e conversar com Beethoven, Chopin, Tchaikovsky e Carlos Gomes. É acreditar no sertão como um ser tão próximo, tão dentro da alma. É carregar um eterno monjolo no coração e ouvir um berrante tocando longe, bem perto do sentimento.

 

A fantasia de Carnaval

Na correria do dia a dia, o trânsito parado no engarrafamento, buzinas e discussões, e um motoqueiro quase me arranca o retrovisor esquerdo. Eu fico na minha, sei que não adianta fazer nada, o remédio é esperar.

Tinha uma reunião lá no trabalho mas eu não contava com um engarrafamento deste porte aí na frente. Não há, portanto, mais pressa.

E quando olho para o meu lado direito, vejo que estou diante da porta de entrada de uma casa simples. A porta está aberta e no sofá da sala uma senhora provavelmente septuagenária monta distraída uma fantasia de Carnaval. Nem se dá conta de que logo ali à sua frente, a poucos metros do tal sofá, motoristas e motociclistas se digladiam no trânsito maluco.

Isso não a interessa.

A casa é baixa, quente, e por isso as portas e janelas estão abertas, numa exposição absurda de sua intimidade. Mas isso também não a interessa. Ela só quer mesmo é se preocupar com a montagem dos enfeites da fantasia.

 

Carnaval saudoso

 Vai longe, no tempo e na minha memória, a frase “Carnaval era bom mesmo antigamente” (e suas variações). E lá pelo meio desse tempo, quando eu atravessava a minha década de 40, descobri que o “tempo bom” era apenas o da memória de cada um. Hoje, tenho provas e convicções de que acertei: as marchinhas que me encantaram lá pelos anos 50 e 60 são citadas, hoje, como coisas daquele tempo bom. E divirto-me recordando o som das falas dos mais velhos, remetendo-se cada qual à sua própria mocidade.

“Se você fosse sincera, ô ô ô ô... Aurora” / “Tem, tem, tem um amor em cada porto” / “Menina vai! Com jeito, vai! Senão um dia, a casa cai”. “Alalaô ô ô ô, ô ôô...” Tempo bom era aquele! Sempre o que se passou dez, vinte ou muito mais anos atrás!

E no próximo sábado, nas ruas de Nazário – sim, Nazário, Goiás! Pertinho de Goiânia – um grupo de mais ou menos 125 vovós e similares, gente da própria cidade e de Claudinápolis, desfilarão, no começo da tarde, cantarolando marchinhas daqueles tempos bons – e aposto que os tais tempos bons serão retratados sonoramente por canções bem cadenciadas dos carnavais das décadas de 30, 40, 50 e até 80 do Século em que nascemos!

 

Não desarmam os palanques?

 Sim: não os desmontam, nem descem deles. Os extremistas da situação continuam festejando os últimos votos que confirmaram Dilma Rousseff presidente para os próximos quatro anos, e os extremistas da oposição falam em impeachment como se a medida fosse – como dizem os petistas mais afoitos – um terceiro turno (aliás, petista mais afoito pareceu-me o ministro Dias Toffoli ao encerrar os trabalhos pós-eleitorais vociferando o jargão “terceiro turno”).

Pessoas que tiveram o privilégio da boa escolaridade, portadores de diplomas que lhes asseguram salários confortáveis, ocupantes de bons lugares ao sol dos recursos materiais etc. – de ambos os lados – gastam tempo e espaço nas redes sociais, uns pregando um abaixo-assinado que propõe o impedimento da eleita, outros tentando demonstrar por meios nada convincentes que os escândalos do Mensalão e do Petrolão (em maiúsculas pela magnitude do dinheiro e dos reflexos desses males) foram inventados pela oposição, oposição essa que domina o Supremo Tribunal Federal (sim, alguns chegam a dizer essa bobagem) e que detém todos os veículos de comunicação e constitui o PIG – este, sim, um fictício “partido da imprensa golpista”.

 

A tocaia

A Estrada Real era a principal artéria da província de Goiás, trânsito obrigatório de pessoas, animais e mercadorias. E pelo nome pomposo deveria ser uma via bem pavimentada e especialmente conservada. Mas nem de longe era essa realidade. De trânsito relativamente intenso, dado à tentativa do Império de manter a arrecadação de impostos, deteriorava-se aos poucos pelos cascos dos animais e rodas de carros de bois. Em algumas regiões a coisa era dramática e quem passava a pé se via com lama até a cintura.

No entanto, o pior pessadelo de quem transitava por aqui era sem dúvida a violência. E essa história era contada pelas tantas cruzes espetadas às suas margens. Os locais preferidos pelos bandidos eram os estreitos, quando o trânsito se apertava, por exemplo, entre rochas, o que punha em vulnerabilidade os transeuntes e tornava sem eficácia qualquer estratégia de defesa. E foi justamente no afunilamento de dois paredões de rocha, há quatro dias de Meia Ponte, que um grupo de assaltantes achou de montar tocaia para esperar a passagem de uma comitiva. Eram quatro homens liderados por Agostinho, todos armados de arcabuzes e dispostos a tudo pelo intento. A eles foi prometido muito ouro e pedras preciosas, desde que saíssem vitoriosos, e para essa gente pobre que quase passa fome, esse era um estímulo considerável.

 

Marco Antônio Silva Lemos - Duas vezes desembargador

 Eis um título ainda não atribuído a nenhum brasileiro em toda a nossa História: um desembargador aposentado, ainda em anos férteis e produtivos, não se acomodou ao tal de “merecido ócio”. Fez novo concurso para a magistratura (no caso dele, na esfera do Distrito Federal e Territórios), foi aprovado, iniciou nova carreira e, agora, é novamente nomeado Desembargador.

Estou falando de um amigo de décadas, colega no ofício jornalístico, meu editor no semanário Cinco de Março e no Diário da Manhã em seus primeiros tempos: Marco Antônio Silva Lemos é um legítimo campineiro – gentílico urbano do bairro de Campinas, em Goiânia. Certamente, torcedor do Atlético e sem dúvida ex-aluno do Colégio Estadual Pedro Gomes.

Dono de um texto impecável, em estilo e correção de linguagem, de gramática e dos demais meandros da Língua, fez brilhante carreira como juiz. Quando da Constituinte, em 1987, foi enviado do Distrito Federal para o então território do Amapá, com a missão de criar o Tribunal de Justiça do Estado a instalar-se. E, com sua visão de atualidade, fez com que aquele fosse o primeiro tribunal informatizado em todo o país. Pouco tempo após, e com base no tempo de contribuição social, aposentou-se. E o restante da história é a que contei linhas acima.

 

A filha do comissário de polícia

A intenção de Norberto até que era das melhores. Apaixonado pela filha do comissário de polícia e correspondido, resolveu procurar o pai da moça para namorar e foi surpreendido por um não. Voltou para casa arrasado e pediu que seu pai fosse lá ter um particular com o homem, mas é que Serena já estava comprometida com um moço da capital.
Essa explicação revoltou demais Norberto. Pensou o seguinte: se ela me ama e eu a amo, então temos que ficar juntos a qualquer custo. A ideia da fuga surgiu de imediato mas a prática demorou um pouco. A moça concordou na hora com a ideia, mas faltavam ainda detalhes importantes. Para onde ir? Como sobreviver por si só. Pediu ajuda ao pai que de pronto negou e ainda o repreendeu. Avisou que o comissário era pessoa conhecida por sua truculência e que um ato desses era morte na certa.
Depois de duas semanas de conjecturas, Norberto tomou uma decisão radical e impensada: mandou recado para que a moça o aguardasse naquela noite mesmo. Mal a escuridão desceu, já partia o casal colina acima a galope até que entraram na mata fechada e a escuridão absoluta não os deixou prosseguir. Até nisso faltou planejamento, pois deviam ter escapado em noite de lua cheia e sem nuvens. Parados ali no meio do mato, as montarias resfolegantes, os corações aos saltos de apreensão, veio a pergunta: — E agora?

 

A patrulha

Quando eu morava na cidade de Goiânia, participava de uma patrulha que ajudava moradores de rua. Não tínhamos nenhuma vinculação religiosa e não pregávamos nada aos que recebiam assistência. Toda quinta-feira um sopão era feito no refeitório de uma instituição e a gente saía à noite para distribuição.
Aprendi muito nessas patrulhas, principalmente a me despir de preconceitos. Temos o hábito ruim de rotular pessoas. Se são moradores de rua, logo pensamos em álcool ou drogas, furtos e promiscuidade. Mas estamos enganados. Há famílias inteiras bem estruturadas, gente que não alimenta vício algum e que ainda assim mora na rua.
Conheci em especial um senhor muito simpático, que agradecia com sorriso amplo nossas oferendas. Ele morava na praça da Bíblia e durante anos foi nosso “cliente” nas sopas. Sempre que o encontrava, conversávamos pelo espaço que o tempo permitia, pois a parada era rápida, já que tínhamos que percorrer longa rota.

 

 

José J. Veiga, ano 100

 Era uma manhã comum de sábado. E era abril, em 1978. Desde alguns meses antes, eu tinha montado, com o sonho e a esperança de publicar, o que sabia ser o meu primeiro livro – um livrinho de contos. E eram os anos do governo do general Geysel, o que falava em distensão gradual e lenta...

Pois era manhã, possivelmente dez horas, quando chegamos à casa de Dona Geny, no Largo do Rosário (Pirenópolis), Luiz Antônio Godinho e eu. Batemos à porta, Esdras nos atendeu e abriu a porta, tal como sempre nos abria o sorriso e o coração de boa amiga. Dissemos que queríamos visitar José Veiga e ele surgiu, silencioso e tímido. Luiz Antônio cuidou de nos apresentar.

Intimidei-me também ante a timidez do famoso contista. E falei com cuidado que a ousadia de invadir sua paz naquela manhã de sol e azul tinha a ver com o meu propósito de fazer um livro...

 

O cavaleiro na noite

Marinho não teve paz desde que se mudou para aquele casebre. Contratado para tomar conta do rebanho do coronel, foi morar lá na nascente do riacho, ao pé da serra, numa solidão de dar dó. Sem esposa e filhos, não lhe restava outra companhia que aquele cachorro vira-latas.
Mas falávamos do desassossego do pobre Marinho, que uma semana depois de se mudar para o retiro ermo, deu de ver um cavaleiro na alta madrugada. Na primeira vez ele até achou que se tratasse de um viajante perdido naquelas paragens, porque não havia saída para além das veredas. Uma serra muito alta cercava tudo. Então se alguém aparecesse por lá é porque estava mesmo perdido. 
Com esse pensamento, saiu ele com o candeeiro numa mão e a carabina noutra e aguardou que o visitante se achegasse. Era uma noite nublada e entremeio contornos do luar conseguiu vislumbrar cavaleiro e cavalo parados a cerca de cinquenta metros. Esperou por algum tempo e depois não os viu mais. Na noite seguinte, a mesma aparição. E nas outras também. Não dizia nada e nem se aproximava muito. Seu cachorro urrava a não poder mais, e era quase um choro lamentoso que exprimia. 

 

Quatro escribas centenários

Espaço José J. Veiga, na Biblioteca Central do SESC: eu e Lucas com o busto de Veiga e a placa dos quais me orgulho

Enfim, e sob o silêncio das entidades e instituições locais, bem como da mídia (como anda desmemoriada a mídia!), começamos 2015, o ano que marca os 100 anos de nascimento de José J. Veiga (2 de fevereiro), Eli Brasiliense (18 de abril), Bernardo Élis (15 de novembro) e Carmo Bernardes (2 de dezembro).

 

O catador de velórios

Marcondes não era uma pessoa má, mas uma mania feia o tornou indesejado na cidade. É que ele era um catador de velórios. Isso mesmo. Não podia morrer alguém que lá vinha ele filar café e biscoitos. Conhecesse ou não o morto, não perdia a oportunidade de lanchar e ainda aporrinhar os familiares do desafortunado.
Murilo era um dos que implicavam com Marcondes. E ao vê-lo num velório todo meloso para cima da viúva, boca cheia de bolo, biscoitos guardados no bolso, Murilo prometeu para si mesmo que, quando morresse alguém em sua família, ali não pisaria o catador de velórios.
E não é que, pouco tempo depois dessa promessa, a mãe do promitente morreu. O velório, como condiz com toda cidade do interior, foi na casa do morto. E entre flores e velas, lembrou-se Murilo que a visita importuna apareceria cedo ou tarde. Então tomou uma decisão radical:
— Fechem as portas da casa.
— Mas papai, os amigos e parentes ainda não chegaram todos.
— Não importa. Aquele catador de velórios aqui não pisa.

A magia do belo

Já houve um tempo em que eu me preocupava com fatos e acontecimentos ruins. Tinha grande importância para mim as notícias que os meios de comunicação despejam em nossa casa cotidianamente. Se um político era pego com dinheiro corrupto, se um estuprador vitimava crianças, se pessoas eram assassinadas e o caso caía no esquecimento, tudo isso me causava profundo mal-estar.

Foi então que mudei meu modo de ver a vida e lidar com os capítulos da história do mundo. Conscientizei-me de que não poderia fazer nada pelas vítimas assassinadas ou estupradas e de que o político corrupto teria contas a acertar com a justiça. Enfim, parei de assistir noticiários e passei a me dedicar à poesia.

O que se diz

 Esta crônica faz 10 anos!

Remexer velhos papéis ou, neste caso, fuçar nos velhos arquivos do computador – prática boa que me enleva porque, ao reler velhos textos, viajo no meu próprio passado e recordo muita coisa. Aqui, cito pessoas queridas que mal tenho visto, ultimamente – afinal, esta é uma crônica escrita em 17 de agosto de 2004 – há dez anos, pois! E publicada logo após. Agora, é revivê-la! L.de A.

A Patrulha

Quando eu morava na cidade de Goiânia, participava de uma patrulha que ajudava moradores de rua. Não tínhamos nenhuma vinculação religiosa e não pregávamos nada aos que recebiam assistência. Toda quinta-feira um sopão era feito no refeitório de uma instituição e a gente saía à noite para distribuição.

Aprendi muito nessas patrulhas, principalmente a me despir de preconceitos. Temos o hábito ruim de rotular pessoas. Se são moradores de rua, logo pensamos em álcool ou drogas, furtos e promiscuidade. Mas estamos enganados. Há famílias inteiras bem estruturadas, gente que não alimenta vício algum e que ainda assim mora na rua.

Alma criminosa

Uma das vantagens da advocacia criminal foi conhecer a fundo a alma de criminosos que o sistema considerava perdidos. Eram pessoas que matavam, estupravam, traficavam drogas, torturaram com requinte de crueldade. Na maioria das vezes, essas pessoas eram paupérrimas, não possuíam dinheiro para um advogado.

Então o escrivão do crime batia lá na porta do meu escritório, sorriso amarelo, trazia um pedido de socorro do juiz e geralmente já vinha com um processo ensebado debaixo do braço. O juiz escrevia à mão num bilhete que aquele era um caso complicado e que os advogados da comarca de esquivavam da defesa. Eu era seu curinga. Ele só recorria a mim em casos extremos, quando ninguém mais queria pegar a causa. Ladrão de galinha era encaminhado aos novatos. Eu não tinha a obrigação de pegar o caso, mas nunca recusei nenhum. Era a minha contribuição à justiça brasileira.

A Oração

Por favor
Que horas são?
Será que
A oração
É melhor
Que dizer não?!
E o que diria
O homem


A Rolinha

Chegava eu à casa de minha mãe, já aguardado para um café com quitandas, quando notei um menino com um estilingue na mão a olhar afoito para a copa duma árvore. Pensei até em passar direto, pois mamãe me esperava há certo tempo, mas como hoje em dia é raro ver um estilingue, parei para saber do que se tratava. E ainda bem que o fiz, pois o garoto tencionava alvejar uma rolinha que chocava seus ovos.

 

Maria Maria

No fôlego da alma feminina
Ainda usamos coleiras invisíveis
Um vazio rigoroso ao sair da rota desenhada
Na correnteza de domínios e mágoas
Carregada  pelas rédeas da colonização e
Pelas cadeias da história machista.

Maria da Penha e/ou Maria da Peia
Maria das Cores e/ou das Dores

A microrregião do Entorno do Distrito Federal

O falecido jornalista José Reis, meu amigo e confrade na Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música, mudou-se de Brasília para Pirenópolis, onde residia na rua do Rosário. Era pioneiro na Capital Federal e conhecia bem sua realidade. Acho que era por isso que Reis, sempre que ouvia alguma notícia sobre a microrregião do Entorno do Distrito Federal, ficava bravo com a menção do nome de Pirenópolis. Segundo ele, nossa cidade não tinha que constar na relação de Municípios que constam como pertencentes àquela microrregião.
São eles: Abadiânia, Água Fria de Goiás, Águas Lindas de Goiás, Alexânia, Cabeceiras, Cidade Ocidental, Cocalzinho de Goiás, Corumbá de Goiás, Cristalina, Formosa, Luziânia, Mimoso de Goiás, Novo Gama, Padre Bernardo, Pirenópolis, Planaltina, Santo Antônio do Descoberto, Valparaíso de Goiás, Vila Boa e Vila Propício.

Por onde estive?

Agora que voltei para casa e abracei uma vida mais tranquila, vejo quantos amigos já não estão mais entre nós. Carlos Antônio, Manoel Mesquita, Joãozinho das Flores, todos eles já morreram para este plano e eu nem soube. Certamente que estava distraído na correria da cidade grande, iludido qual a mariposa que se hipnotiza pela luz. Eram meus colegas de infância e agora são saudade e recordação.

Depois que me mudei de Goiânia para Pirenópolis, minha vida é outra, e o tempo sobra sem miséria. Posso caminhar no final da tarde, conversar com pessoas nas calçadas, trabalhar a pé. E também perguntar pelos amigos antigos, aqueles que só agora me dou conta da existência. Muita gente está morta, como disse, porém também reencontrei pessoas que não via há pelo menos dez anos.

A bênção, meu padrinho!

As chuvas intermitentes do mês de julho ousavam cair sobre a terra. Como num festejo continuo pós ressaca das coloridas noites juninas, nos arraias nordestinos. Nesta amálgama temporal – comemorações e inverno – em que se vive anualmente na terra comum dos homens, as crenças dão um tom a esta aquarela. Os foguetes, verdadeiros sinais de comemoração insistem em ascender aos ares, cuja imponência ofusca os olhares mais atentos. O odor da pólvora ao explodir, exalava muito mais que meros ingredientes químicos. E na alvorada que surgia, trazendo consigo a esperança de tempos amenos, o som do pífano fazia-se ouvir nas estreitas vielas. Qual maestro frente a pomposa turba de músicos e instrumentistas, o mestre da banda com a flauta entre os lábios, comandava os demais. O cortejo insistia em seguir diante das casas, levando o ícone numa  “esmolação” religiosa. Aos estranhos àqueles costumes, indiferentes as suas estórias e crendices, passariam de largo sem atentar a beleza implícita daquele momento. A figura do homem que no imaginário popular, encontrou guarida para tornar-se milagreiro, beato e santo -Padre Cícero Romão Batista, recebia as homenagens de seus fiéis. 

O Tropeiro

 A verdadeira riqueza de uma pessoa está além dos bens que acumula, e a sabedoria creio ser a maior de todas as fortunas. Passar por uma longa vida e registrar na memória cada instante do tempo, isso sim é ser rico.

Aos noventa anos de idade, vó Maria é minha fonte inesgotável de pesquisa. E como sabe das coisas, minha avó! Eu a admiro a cada dia que passa. Observo-a no comando das atividades do dia, no conselho que dá às pessoas, no cuidado com que administra seus bens. Está viúva há trinta anos, mas ainda fala de vovô com apaixonadas palavras. É lindo isso.

Nossas conversas duram horas a fio. Ela não se cansa de relembrar o passado, e me surpreende sempre com fatos que nunca ouvi falar. Não repete histórias, tem a memória melhor que a minha. Às vezes eu a testo, peço para contar algo que já falou, e ela responde: “Você acha que já estou caducando!”

O tempo e a sociedade

 O transcorrer do tempo é algo fascinante e assustador. Quando vivemos em uma cidade muito antiga, como Pirenópolis, é possível notar mais claramente as mudanças temporais.

Imagine como era diferente o modo de vida dos meiapontenses quando por aqui os garimpeiros ainda extraíam ouro. Pense que grupos de milhares de escravos perambulavam seminus pelas ruas, o barulho dos chicotes no ar, a gritaria dos feitores; chiavam as rodas dos carros de bois que transportavam aroeiras para a construção dos casarões; o leito e o barranco do rio eram revirados cada vez mais fundo à procura do metal dourado. Os cativos tinham que laborar nas minas de sol a sol, construir os casarões, os templos, os muros.

O bebê nas Minas de Meia Ponte

 Não era fácil a vida dos bebês nas minas de ouro no século dezoito. E as dificuldades começavam antes mesmo do nascimento. As grávidas não contavam com acompanhamento médico adequado, não tinham uma alimentação rica em nutrientes e geralmente trabalhavam bastante: carregavam peso, cozinhavam, passavam em ferro à brasa, equilibravam potes cheios etc.

A exceção eram as sinhás, esposas dos ricos proprietários de escravos e donos das lavras. Mas essas eram poucas. Na sua maioria, as mulheres trabalhavam muito.

Na minha aldeia

 Aqui na minha aldeia, com um pouco de atenção se pode ouvir o tempo passar, ou o destino sussurrar sua sentença irrevogável, da qual não cabe recurso, choro ou vela. Pode-se também apurar o ouvido para entender que a chuva confidencia ao telhado segredos lá das alturas e que o vento adianta o futuro ao dedilhar seus mistérios nas vidraças transparentes. Quando pela manhã os galos mais ansiosos anunciarem o despertar da madrugada, é hora de escrever sentenças poéticas para aliviar a alma da gente. E inspiração não falta aos trovadores da alma de plantão, mergulhados nesta energia gostosa que exala dos becos de pedras e dos casarões de muitas histórias. 
Aqui na minha aldeia, já se nasce poeta.

                                                                        Adriano Curado