A sorte é traiçoeira

E aconteceu que, depois de haver perdido tudo para o Maneco numa mesa de carteado, João resolveu se matar por receio de encarar a esposa e filhos em casa. É bem simplista uma solução assim. O sujeito faz as opções erradas na vida e quando as coisas desandam, parte dessa para outra. O pior mesmo, pensa ele à procura de uma árvore para se enforcar, é que já estava prestes a virar o jogo e recuperar o dinheiro perdido, mas daí a sorte se foi e ele apostou a casa onde mora.

Aquela mangueira ali parece ser uma boa opção. Tem troncos grossos e na altura certa: nem tão baixos que permitam que o instinto de sobrevivência o force a tocar os pés no chão, nem tão altos que exijam uma escalada. É, essa serve! Joga então a corda mais acima, senta-se no galho de onde pretende saltar, passa o laço no pescoço e se prepara para o mergulho mortal. Se tiver sorte e o pescoço se partir no baque, melhor. Se isso não acontecer terá de morrer asfixiado. 

É só dar um salto, João, e tudo está acabado. Passam bandos de pássaros no horizonte e uma vaca berra melancólica nas proximidades. Pensa agora que, se se jogar dali, aquela mangueira ficará amaldiçoada e ninguém mais vai querer seus frutos - as mangas da árvore do enforcado. Melhor mesmo escolher outro lugar.

E foi na procura de uma árvore para se matar que João chegou em casa. Era uma construção simples, de reboco à mostra, telhado com necessidade de reparos, mas cercada por multicoloridas flores do campo. Entra agora de cabeça baixa, com a corda ainda no ombro, e antes de narrar o acontecido à esposa, é surpreendido:

- A polícia estourou há uma hora aquele cassino clandestino perto da ponte velha. Me disseram que os de dentro responderam com tiros e os policiais passaram pente fino. Não ficou um jogador para contar história.
- E o Maneco? Ele sempre ia lá jogar.
- Foi o primeiro a morrer porque atirou no cabo do destacamento.

João agora se senta pesado na cadeira. Olha para a esposa e os quatro filhos pequenos, para a imagem de Senhora das Graças no oratório e por fim para a corda que ainda carrega. João pensa: "a sorte é traiçoeira."

Acadêmico Adriano Curado

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