Adeus ao Minc


Estou de volta para São Paulo.
Alguns amigos celebram, preocupados com minha participação nessa política absurda que nos envolve a todos. Outros desdenham já que me questionaram quando fui para Brasília.
Outros, pelo contrário, me criticam, era preciso mais paciência. 
Já adianto: saio com a sensação de que errei. 
Mas sem arrependimentos.
Quem me conhece sabe que desenvolvi minha carreira no cinema, na política, na TV, - nos piores e nos mais difíceis momentos da vida brasileira, desde antes de 1964. E em situações em que eu sempre buscava o que chamo de dobras do sistema. Nunca tive ilusão de que a cultura, aqui, tivesse algum dia o apoio e a tranquilidade com que sempre sonhamos e onde pudéssemos de fato escolher o campo e a bola para jogar. Como um dia me disse o Henfil, sobre o Brasil da ditadura: “o governo não nos dá prêmios, mas dá assunto”.


Eu fui para o Ministério da Cultura pensando na possibilidade de realizar- e blindar- uma nova política cultural. E saí quando cheguei ao limite: ficou impossível desenvolver uma verdadeira política cultural em meio a essa turbulência política, dragão que a tudo devora, imobiliza, desencanta e inviabiliza. 
Trabalhei sem parar, primeiro na burocracia da Secretaria da Cultura, depois na cadeira enganosa de Ministro, mesmo que interino, por 43 dias. É difícil imaginar o que é uma burocracia sem projeto cultural que a domine. Uma quantidade enorme de pedidos de socorro, verbas faltantes, prestações de contas atrasadas que ameaçam os proponentes com multas e devoluções agigantadas, instituições públicas falidas ou quase, nano-orçamento ainda cortado em 43%, polêmicas histéricas a respeito de artistas e o uso de dinheiro público. E, apesar de tudo isso, uma forte disputa partidária por essa vaga ilustre. Diatribes que ocupam os minutos e os dias do Ministro. Nada de política cultural. 
Meu desentendimento com o governo já é público. Não quero repisar críticas. Afinal não é só o Minc que padece de nosso mal político. 
E nem pensem que guardo mágoas ou que desejo o mal para a nova equipe do Ministério. Nosso mundo da cultura não merece o mal em que já está e nem algum mal que possa vir. 
O Ministério, para sobreviver, tem que estar acima de nossas divisões. 
Mas espero que algum dia algum Ministro de boas ideias e apoiado por um bom governo possa realizar ali um bom trabalho. 

João Batista de Andrade

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