Mestres do Folclore Brasileiro

 As multicoloridas fitas e não menos reluzentes apetrechos, que ornamentam numa descomunal aquarela os chapéus dos guerreiros e reisados, quando das sonoras e aplaudidas noites natalinas, traduzem ainda que de forma apenas visual o brilho que inebria e ofusca os olhares atentos da alvissareira turba, de um povo nascido sob a égide de suas tradições religiosas e coloniais, legado indelével de seus antepassados portugueses e afro-ameríndios. Num misto de oralidade e testemunhos epistolares, eis que desponta no imaginário lúdico de nossa gente os causos, lendas e estórias [quase sempre fictícias], comumente contadas em rodas de prosas entre os velhos e afamados mestres do saber popular, que se ufanam em terem presenciado algumas de suas narrativas heroicas e peripécias envolvendo figuras de nosso folclore, indo desde o contato com curupiras nas caçadas coletivas em matas, passando por alucinações ao escutar o eco do canto atraente das Iaras, nas lagoas e lagos, chegando inclusive a serem perseguidos por homens lobos [transfiguração do lobisomem].

Este riquíssimo e indescritível acervo folclórico brasileiro teve a certeza de sua perenidade ainda que às duras e penosas custas, graças ao destemor e profícua dedicação de devotados pesquisadores e ínclitos estudiosos que se doaram sem reservas aqui e alhures, no afã de reunir em obras o que um dia fora transmitido de forma oral. Todas as honrarias não seriam suficientes para demonstrar ao imortal potiguar Luiz da Câmara Cascudo (1898-1986), o reconhecimento por seus relevantes serviços a esta Pátria, que um dia lhe serviu de berço e hoje guarda avaramente seus restos mortais em jazigo perpétuo. O vaqueiro nordestino com seus aboios e toadas, num som frenesi e eloqüente protagonizaram os escritos inolvidáveis de nosso maior mestre e folclorista, a sombra de quem erigiu-se uma plêiade de outros mais.

Ritmos descompassados numa apoteótica alusão ao nascimento do Messias, as pastorinhas em seus cordões [azul e encarnado], disputam a atenção da platéia, ao som das jornadas de Natal, festejando o menino Deus em terras caetés, tudo isso povoou o imaginário intelectual do viçosense, nascido entre a casa grande e a bagaceira do engenho e que o povo consagrou como seu grande mestre – Dr. Théo Brandão (1907-1981), patrono de nosso folclore – máxime da inteligência alagoana.

A tradição africana oriunda das plagas além mar, com seus dialetos tribais – fon, nagô, jêje, bantu, angola, mahi, kêtu,- e crenças consuetudinárias, numa amálgama de cores e ritmos, feito uma torre de Babel construída em alicerces religiosos e pagãos, tornou-se o símbolo de resistência e consolidação, de uma das mais proeminentes e vetustas manifestações culturais ficadas neste torrão [Brasil], cujas raízes remontam ao seio baiano, onde o nome do etnógrafo Edison Carneiro (1912-1972) sobressai pungentemente, na qualidade indiscutível de imortal do folclore negro em suas mais diversas matizes.

Em suas múltiplas facetas com que se apresenta nosso folclore, merece um especialíssimo adendo às brincadeiras infantis, compostas em sua grande maioria dos costumes campesinos e ruralistas, de crianças puxando nos caminhos de chão batido seus carrinhos, confeccionados em latas ou madeira cuja direção é apenas uma tênue linha de barbante, quando não, os retalhos de panos transfiguravam-se em pequenas e paupérrimas bonecas que davam vida a imaginação sempre fértil dos pequenos guris, como eram chamados, tudo isso teve acentuada projeção nos escritos da professora Alexina de Magalhães Pinto (1870-1921), uma mineira de escol.

O sertanejo sempre relegado ao trabalho braçal, madurado ao sol de uma terra inclemente e desprovida de recursos hídricos, com seu linguajar peculiar e não menos caipira, foi sempre a fonte de pesquisa e profunda análise jornalística do paulistano Amadeu Amaral (1875-1929), que declinou sua vasta obra literária sobre a maneira brejeira e popular do agricultor, num misto de regionalismo folclórico e atividade laboriosa.

Se os estudos antropológicos, cuja temática folclórica encontra resguardo e indissociável citação bibliográfica, a este memorável feito deve-se com os merecidos louros, aos verdadeiros e abnegados mestres [Gustavo Barroso, Mário Souto Maior, Pedro Teixeira de Vasconcelos, Silvio Romero, Couto de Magalhães, Bráulio do Nascimento, Cornélio Pires, Renato Almeida, José Maria Tenório Rocha, Rossini Tavares, Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Vicente Sales, Paixão Cortez, Bruno de Menezes, Eneida Alvarenga, Afonso Arinos Peixoto, Raul Lody, Maria Stella Novais, Alceu Maynard, Nicanor Miranda, Leonardo Mota, José Maria de Melo, Ático Vilas Boas, Alfredo Rabaçal, Rodrigues de Carvalho,Valdomiro Silveira, Manoel Ambrósio, Lindolfo Gomes, Barbosa Lessa, Oswaldo Cabral], que um dia se inebriaram nas fontes caudalosas do saber, nascidas no âmago de nosso povo, cujos registros tornaram-se um lídimo oceano de conhecimento, aos novéis amantes das tradições de um Brasil miscigenado e plural.

Olegário Venceslau da Silva é escritor, advogado, membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro, membro da Academia Alagoana de Cultura, membro da Comissão Alagoana de Folclore e sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, Rio Grande do Norte, Espírito Santo e Campinas/SP.

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