Sapucaia, outra vez!

Primeiro, o dicionário de papel; depois, uma consulta ao Google. Faltou-me um bom livro de botânica brasileira, mas o que encontrei é o bastante. Queria saber um pouco sobre uma solene árvore que fica junto ao muro do Parque Agropecuário, junto da esquina da Avenida Meia-Ponte com a Rua Um da Nova Vila, na esquina próxima ao CRER.

Bem, uma amiga me preveniu: a árvore, estes dias, está totalmente desfolhada. Indica que estamos nas últimas semanas da estação seca e em poucos dias ela passará pela floração. Suas folhas ficarão róseas (as mulheres que me ajudem! Eu chamo aquilo de cor-de-rosa, mas as mulheres terão no mínimo cinco nomes que bem marcam os tons variados do que eu chamar de cor). E ao pesquisar o nome “sapucaia”, encontrei um exemplar dessa árvore no ponto em que se faz muito bela, belíssima! Mais que quando verde, que o verde das folhagens é também expressão de raríssima beleza, mas a coloração festiva só ocorre uma vez a cada ano e justo nessa transposição do Inverno para a Primavera (os nomes das estações em maiúsculas obedece a regra que trago dos tempos de primário; qualquer mudança posterior aparece-me como novidade não convincente).

Volto aos conceitos: o dicionário em papel – no caso, o Caldas Aulete (tenho reservas ao Aurélio) – diz-nos que sapucaia é nome de várias árvores, mas dá primazia ao nome científico de uma delas, Lecythis pisonis. E a enciclopédia virtual Wikipédia (nem tudo o que vemos lá é confiável, porque aceita acréscimos, em alguns casos) informa um pouco mais: “popularmente conhecida por sapucaia ou cabeça-de-macaco, é uma árvore brasileira da família das lecitidáceas. Sua semente é chamada castanha-de-sapucaia. A palavra sapucaia tem origem tupi, ainda que existam diferenças nas propostas etimológicas: ou resulta da união dos elementos sa, puca e  ia (respectivamente:  “olho”, “que se abre” e “cabaça) - já que ao abrir-se o opérculo do fruto (que é um pixídio) parece que se vê um olho. Por outro lado, há quem considere que a palavra tem origem na palavra tupi para galinha (elemento de troca entre índios e portugueses, no início da colonização, que as trocavam pelas sementes do fruto, as castanhas).

Pois é! Algumas árvores marcam bem nosso habitat. A sapucaia no Parque da Pecuária é uma das principais referências de Goiânia – como as gameleiras do Setor Sul e as do Setor Universitário; os ipês em toda a cidade (tenho preferência por um ipê branco na Avenida 136, entre a Praça Kalil Gibran e a Rua 115), e as buganvílias da Avenida Portugal.

Daqui a poucos dias, a sapucaia vai florescer e está em mim a impressão de que flores e folhas ganham a mesma cor. É o que vejo nas fotos pesquisadas na Internet. Muita gente vai até lá fotografá-la, postar fotos em suas páginas no Orkut e no Facebook, mostrar aos amigos... É comum a gente se apegar a árvores, elas nos sugerem segurança. E é comum também nos encantarmos com as flores. Flor é sexo de plantas, é a demonstração natural da reprodução, tal como o ventre avolumado das fêmeas sugerem vida nova. Para a sapucaia, o ano deve começar agora, ao término de seu desfolhamento natural para dar lugar ao novo, às flores e aos frutos que virão a seguir.

A natureza ensinou-nos muito! Inclusive a medir o tempo: dias e noites são instantes distintos, mas aprendemos que noite e dia somam-se para mostrar a porta-bandeira Terra a sambar em torno do mestre-sala Sol; a Lua mostra-nos a semana em cada fase e soma-as para nos dar um mês; e as plantas, florescendo assim como a Sapucaia (agora, em maiúscula; e é desnecessário explicar) nos mostra um ano. E os nômades dos desertos “descobriram” o ano contando estrelas!
Em síntese, é a vida a renovar-se, a renascer e... a nos ensinar! Os contadores de dinheiro e outros bens materiais desatinam-se ao tentar ridicularizar os poetas que apreciam as flores, a Lua, o Sol, as estrelas... a natureza em geral. Não sabem, esses desavisados, que viver é poetizar. E, poetizando, fui até a Nova Vila fotografar a sapucaia desnudada. Feito eu mesmo, meio século atrás, a bisbilhotar, à fechadura, a prima que se enfeitava após o banho.

Aquela nudez sugeriu alegria! Não está bela, a árvore, ela apenas se prepara para ornamentar-se de cor, como a prima se embelezava de tecidos e adereços, jóias e carmins de pó-compacto e batom. E nós, cidadãos da cidade, admiradores enamorados, voltaremos lá para regalo dos olhos e registros de imagens.

Acadêmico Luiz de Aquino

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