Catadores de papel

Ontem fomos a Goiânia almoçar em um bom restaurante, desses sofisticados, de renome, para comemorar uma ação judicial que venci. O atendimento da casa é de fato diferenciado, a comida sem defeito e o ambiente reproduz o Caribe. Enfim, dia agradável. 

O problema começou quando pedi a conta e ela veio absurda, abusiva. Não cobraram nada além do que foi pedido, é certo, mas acrescentaram uns adicionais estranhos que disseram ser porque pedimos mais comida que o prato previa. Tipo assim, a travessa de arroz acaba e você pede para complementá-la. Nada demais. Mas creio que eles queriam ganhar em cima de mim porque, apesar de chique e renomado na capital goiana, o restaurante estava vazio, e justo na hora do almoço.

Respirei fundo, coloquei o cartão de crédito em cima do prato e disse ao garçom: 

― Embale toda esta comida dentro de marmitex que vou levá-la". 

Ele olhou para os lados, olhos assustados, e confidenciou baixinho: 

― Aqui não temos esse hábito, senhor.
― Não me importa se têm ou não o hábito. Comprei comida e paguei ouro, então vou levá-la para casa porque ouro não se joga fora.
Daí a pouco veio o gerente do restaurante, pediu desculpas por quaisquer inconvenientes, disse que poderia rever o valor da conta, etc. e tal. Eu respondi que não precisava rever nada porque graças a Deus tinha condições financeiras para pagá-la, mas que o marmitex eu levaria de qualquer maneira.

― É que não fica bem para a casa o senhor sair assim com restos de comida.
― Restos de comida é aquilo que está dentro do seu lixo para jogar fora  respondi já alterado. Depois saquei a carteirinha da Ordem dos Advogados e mostrei a ele:  Não compre uma briga comigo.

Em minutos as marmitex estavam prontas e foram montadas ali na minha frente, nada de levar a comida para lugar onde não pudesse vê-la. O garçom desmontava e remontava os pratos com o rosto corado, enquanto os poucos clientes ali presentes observavam com ar divertido. 

Por fim, agradeci e sai com seis sacolas de boa comida na mão. Ainda na porta do restaurante vi na ilha da avenida um catador de papel com um menino ao lado. Descansavam à sobra de uma árvore. Não tive dúvidas, atravessei e me acheguei a ele:

― Bom dia, senhor.
― Bom dia  respondeu-me ele.
― Tenho aqui umas sobras de comida e gostaria de saber se o senhor as quer.

Os olhos do homens se encheram de lágrimas e ele abraçou o filho e disse:

― Não falei!

Ficaram ali naquela cena um certo tempo, até que me contou que era viúvo e morador de rua, ainda não haviam comido naquele dia, e já eram três horas da tarde, o filho estava desesperado de fome mas ele procurava acalmar a criança dizendo que cedo ou tarde um anjo apareceria e os fartaria com um grande banquete.

Acadêmico Adriano Curado

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