Num instante, o desencanto

 Disse sempre, e gosto de repetir, que jamais a preguiça me impede de escrever. Temos preguiça, às vezes, de fazer coisas como andar, organizar objetos, arrumar gavetas e até mesmo de dar seguimento a conversas, mormente as que nos desagradam. Mas cada um de nós tem uma disposição permanente para determinadas coisas. Minha vontade continuada é a de escrever.

Neste gosto pelos textos, sempre fui de ler para me informar e aprender. E ler por lazer, que vem a ser o suprassumo dos momentos, nessa prática salutar para a mente e o espírito. Lembro-me de quando, lá pelos seis anos de idade, sentando num banco de madeira em frente à loja do tio Aníbal, meu bisavô Donato Ríspoli surpreendeu-se porque tentou ganhar minha atenção – mas eu não desviava os olhos e a atenção de um prosaico gibi em preto-e-branco.

Andei dizendo a algumas pessoas, recentemente, que ando com preguiça de escrever. Fui olhado com estranheza, e eu mesmo tratei de considerar o que poderia me incomodar a tal ponto. E achei que não estou mesmo com preguiça de escrever, mas perturbado pelo desencanto. A facilidade na comunicação, com o advento do computador, dos “esmartefones” e outras engenhocas isolou as pessoas de seus próximos, mas aproximou-as dos distantes – que paradoxo, não? E os polegares saltitantes nos teclados desses aparelhinhos introduziram as pessoas no ofício dos textos, mas...

Que merda, hem? As pessoas entraram na escrita antes de aprender a escrever! Lembro-me de quando, nos idos do semanário Cinco de Março, isto é, nas décadas de 60 e 70 do século passado, o jornalista Valterli Guedes entrevistou um deputado desses simbólicos, quero dizer, enfáticos e muito falantes. O homem declarou que “aos dez anos de idade já era professor” – o que meu velho companheiro traduziu, no texto para o jornal, dessa forma: “Prodígio – foi professor antes mesmo de ser aluno”.

Há menos de uma semana, coleguinha jornalista da jovem-guarda recordava, em linhas do Facebook, de outros profissionais, de sua faixa etária, que, no exercício da profissão aqui mesmo no DM, cometiam erros crassos que um revisor, dono de excelentes textos em prosa e verso, corrigia tentando ensinar. Os moços malversados na Língua e na prática da escrita, debochavam do professor-revisor e esvaíram-se no quotidiano. Em pouco tempo, eis que os reencontra noutro ofício – o de professores de Jornalismo numa das várias faculdades patrocinadas pelo Pro-Uni, esse programa de governo que remunera empresários empreendedores do segmento educacional. Ou seja, uma nova linha do empresariado investe num ramo que não é de sua “expertise” (como dizem agora) e, justo por não saberem, contratam como professores justamente os profissionais falidos no ofício da profissão.

Entenderam, queridos leitores? Ando meio que desencantado com o sucesso dos falsos valores. Qualquer profissional, até poucos anos atrás, orgulhava-se por demais ao ser chamado (ou aceitar-se como tal) de professor na formação de seus próprios colegas! Mas com uma qualidade dessas num corpo docente, que qualidade podemos esperar dos novos profissionais? Consolida-se a prática do “professor que finge ensinar” para “alunos que fingem aprender”.

E concluo confessando: passei alguns minutos percorrendo meus guardados, pensei em publicar, hoje e aqui, alguma crônica antiga. Mas preferi assumir este momento de decepção, o que me prova (para minha própria alegria) que a preguiça de escrever ainda não me atingiu mesmo!

Acadêmico Luiz de Aquino

http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com.br/

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