Um gatuno na soçaite

 Oh, vida! Nestes meses e dias em que tanto se discute a penalidade ante vários crimes – vivemos sob o signo de mensalão, petrolão e as mazelas do tráfico de drogas e do desvio sistemático de verbas públicas – e se fala também na falácia da redução da maioridade penal, um fato prosaico me convence de que a índole da desonestidade é, de fato, uma marca do DNA humano de qualquer origem, de qualquer faixa etária, de qualquer segmento socioeconômico ou profissional.

A gente cresce sob a constelação dos valores humanos, da estratificação social: na minha infância e até mesmo na adolescência, as pessoas eram rotuladas, para o bem, de meninas de família, pais e mães (de família, também), pessoas de fino trato, estudantes (sim, a escolaridade era um status tão elevado e caro que alguém numa escola tinha a etiqueta dos “de-bem”), profissionais liberais, empregados de grandes empresas – e por aí seguia a escala de valores.

Nos primeiros anos da década de 60, com o pós-guerra se fazendo sentir, surgiram a conquista espacial, os rádios a pilha, o tergal e o banlon (e as saias plissadas), as calças muito justas e a minissaia... Em breve, os homens começariam a usar cores que não fossem somente branco, preto e cinza. Surgiu a pílula contra a concepção, as motonetas infestavam as ruas, as moças libertavam-se, aos poucos, do tabu da virgindade etc. e tal.

E então, no caso nacional, veio o golpe de 64. A América Latina começava a viver sob o manto das ditaduras implantadas e mantidas pelo poderio do irmão-do-norte. A Europa e América do Norte – destaque para os movimentos contra a discriminação racial nos Estados Unidos e a revolução estudantil no México – também se revoltavam. E 1968 (para nós, o “ano que não acabou”) sacudiu a França e até a Tchecoslováquia se rebelou (mas a URSS agiu com sua costumeira rapidez e capacidade sanguinária).

A ditadura militar brasileira consolidou a elevadíssima mordomia nos parlamentos e chegamos a 2015 com jovens e estreantes deputados estaduais goianos gastando milhares de reais dos cofres da Assembleia nos mais sofisticados restaurantes da capital. Imagina o que não cometem os veteranos caciques estaduais na esfera federal! Jovens de famílias ricas aparecem, vez em quando, na mídia cometendo crimes planejados.

Mas o fato que quero narrar é muito recente e totalmente esdrúxulo: na última quinta-feira do mês passado, numa festa literária na Casa Altamiro – uma das casas da Academia Goiana de Letras – uma jovem convidada levantou-se da mesa em que convivia com amigos e, poucos minutos após, retornou e não encontrou seu telefone celular – ele desapareceu misteriosamente de sobre a mesa.

De imediato, ela e os amigos começaram a chamar o número do aparelho desaparecido. Não atendia. E foram muitas as tentativas, e nada! Tudo indicava que o larápio desfez-se rapidamente do chip – afinal, o aparelho é de última geração, uma peça cara e cobiçada. A jovem economista tinha no aparelho toda uma agenda de trabalho e os contatos de amigos e clientes. O prejuízo era, pois, muito superior ao custo do aparelho.

Ora: a Academia Goiana de Letras é uma instituição respeitável, considerando-se o somatório das vidas dos que constituem seu acervo humano e literário. A Casa Altamiro, um de seus bens, foi doada pelo membro e benemérito Altamiro de Moura Pacheco e é dirigida, hoje, pelo dinâmico e competente acadêmico Iuri Rincon Godinho. A festa, em torno do lançamento simultâneo de dois livros de Ursulino Leão, reuniu o que temos por conta de, como diziam naqueles velhos tempos, “a fina flor” da intelectualidade local.

Mas havia um gatuno entre nós. Quem? Este, certamente, assinou o livro de presenças na entrada da Casa, mas como suspeitar? Alguém, na fraqueza humana de suas inseguranças, apropriou-se sorrateiramente do aparelho da jovem Greice Guerra, e a vítima não teve outra solução senão comprar novo aparelho e tentar remontar sua agenda e lista de contatos.

Mas, no fundo, cada um de nós sentiu-se envergonhado. Quem, dentre os nossos convidados, seria o meliante? E a pena...

Acadêmico Luiz de Aquino

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