Uma nação anti-artes

 A atleta Taís Souza, uma glória do nosso mundo esportivo – especialmente no sofisticado meio dos esportes olímpicos – ficou tetraplégica em virtude de um grave acidente que comoveu todo a nação. O veterano país do futebol descobriu que poderia ser bom também no automobilismo, no vôlei, no basquete e, mais recentemente, na ginástica olímpica, na natação, no judô e nas velas, mas continuamos sendo, nesse particular, uma potência emergente.

Ao comentar a aprovação, pela Câmara dos Deputados, de uma pensão no valor máximo do teto da Previdência Social para a jovem desportista, um jornalista da CBN fez críticas e teceu ironias às autoridades políticas pelo descaso com que tratam o esporte brasileiro de todos os gêneros. Um clamor emocionante, na verdade, mas discricionário. O coleguinha jornalista omitiu, por intenção ou ignorância, um mal de igual ou pior teor, que é o descaso do Brasil para com os escritores (poetas e ficcionistas), os músicos que não conseguiram romper a tensão superficial do xou-biz, os artistas plásticos que lutam por vender um quadro para quitar a conta do armazém e comprar mais tintas e pincéis etc.
O Brasil investe e retribui na sub-arte. Endeusa uns raros poetas em cada década – com ênfase para os que despertaram o interesse de algum poderoso do complexo sistema de comunicação de massas (Cora Coralina, Ariano Suassuna, Manuel de Barros e... E.. E... Quem mais mesmo?). A imensidão territorial faz deste país um continente: Goiás é um Chile; Bahia, uma Colômbia; Minas, uma França; Pará, uma Espanha – e assim por diante. Mas toda a mídia rende loas ao eixo Rio – São Paulo, em prejuízo dos demais. Nos Estados onde o respeito à produção autóctone existe (Rio Grande do Sul, Pernambuco, Minas, Bahia...) os artistas locais ainda têm mérito em casa, mas entre nós a coisa é triste!

Esta semana, conversando com duas jornalistas – uma já experiente, beirando 40 anos, e a outra recém formada, com prováveis 22 anos – constatei que quase nada sabem dos escritores locais, muito pouco dos nossos músicos de MPB e de Rock, mas discorrem com riqueza de detalhes sobre a produção e a vida pessoal de artistas norte-americanos e ingleses, inclusive sobre alguns de quem jamais ouvi falar.

Exceção: ambas me conhecem bem (uma porque eu vi nascer e crescer; a outra por ter trabalhado comigo), mas de dez membros da Academia Goiana de Letras que lhes citei – inclusive alguns que detêm dezenas de prêmios nacionais e elevada atuação nas letras locais – nenhuma delas conhecia ao menos dois. E nas artes plásticas? E no cartum? E o riquíssimo meio de produção de MPB em Goiás? Dois ou três nomes, apenas...

Em contrapartida, ambas – que juram não curtir o sertanejo moderno – serão capazes de dizer até mesmo o número das botas dos cantantes dos superxous que as emissoras de tevê e os cadernos bê dos jornais estampam em fotos estonteantes e manchetes estrondosas.

É triste conviver com esta realidade. E sequer podemos cobrar posturas do público ante nosso trabalho, pois não fazemos por merecer o conhecimento dos nossos estudantes. O consumidor de música em xous populares de dezenas de milhares de espectadores confunde-se com o consumidor de ecstasy (é assim que se escreve?). E pessoas com tal perfil passam longe dos livros, dos teatros e da intenção de ostentar na parede da sala ou do quarto uma tela de Roos ou de Alexandre Liah.

O colega da Rádio CBN (de  São Paulo) deve praticar algum esporte; e ele não se destacou como atleta, mas sobrevive com dignidade como   comentarista esportivo. Ele jamais erguerá a bandeira das artes, como faço agora. Só que a diferença entre nós será sempre esta... Eu estou a comentar o que ouvi dele; ele, porém, jamais lerá o que escrevo. Sobretudo um texto como este, no qual enfatizo o descaso das autoridades, da mídia e do público para com as letras, as artes, a dramaturgia e a música – essas artes que transformam pessoas e mudam regimes, como já o fizeram nas décadas de 1960, 70 e 80.

Acadêmico Luiz de Aquino

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