Serafim, o bêbado

Coitado do Serafim, tão jovem e já estregue desse jeito ao vício do álcool. Ele é de família boa, de pais trabalhadores, mas saiu assim meio que torto, desembestado na vida. Seus amigos são outros bêbados que frequentam a taberna no final da rua e não têm compromisso com quase nada. Já tentaram demovê-lo da ociosidade alcoólica, mas todas as iniciativas foram em vão — igreja, trabalho remunerado, namorada, nada funcionou.

Hoje mesmo foi na boquinha da noite à taberna e por lá encontrou os tais companheiros de sina. O engraçado é que falam muito mas conversam pouco. E nem devem conversar demais, pois amanhã não se lembrarão bulhufas. Beberam o que coube e o quanto deu o dinheiro, despediram-se e saíram pela pequena cidade. Uns ficaram por debaixo de alguma ponte ou árvore, outros foram aliviar a bexiga nos jardins das casas e não faltaram aqueles que não conseguiram se levantar, dormiram na taberna mesmo.

Serafim não estava lá tão bêbado quanto a maioria. Ao pisar na calçada, suspirou fundo, olhou para o céu sem lua e marcou mentalmente o rumo de casa. Cambaleou de um lado ao outro mas tomou o cuidado de não derrubar sua preciosidade: uma garrafa de aguardente cheia até a tampa. Ainda faltava um tanto para o raiar do dia e poderia usufruir da bebida sem sócios sedentos.

A ruína do ser humano é mesmo a ganância. Em vez de seguir naturalmente pela rua, como fazia todos os dias, decidiu Serafim cortar caminho pelo mato. Sentiu medo de topar com algum companheiro da taberna e ser forçado a dividir seu precioso.

Noite sem lua, escuridão, tropeçou ele numa raiz e depois de catar cavaco por uns dois metros, abraçado forte com a garrafa, bateu de encontro ao tronco de uma árvore. Ao apalpar a barriga, percebeu que estava toda molhada, e então se desesperou, elevou aos mãos ao céu e pediu:

— Senhor Deus, permita que isto seja apenas sangue!

Adriano Curado

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