Falta finesse

 Uma das mais belas vias de Goiânia é a Avenida 85, especialmente no trecho que vai de seu cruzamento com a Avenida D (popularmente conhecido como Praça do Ratinho) até o seu final, no sopé da Serrinha, ainda que chamada, desde a T-63, de S-1. O canteiro central ajardinado (já foi florido, por iniciativa do prefeito Nion Albernaz e sob o talento do saudoso Ailton Lelis) ostentou ipês que floriam lindamente prenunciando a Primavera, mas o autoritarismo de quem vinha das forjas da ditadura impôs sua troca por palmeiras imperiais.

Ainda assim, a avenida era linda.

Era, até a última quinta-feira. A ausência de arquitetos urbanistas nos quadros da Prefeitura – ou, o que me parece mais verossímil, o impedimento que lhes impõe o aprendiz de títere que reina hoje no Paço Venerando de Freitas – resulta nisso – uma vez mais, o visual da cidade é violentado. O pretexto é encurtar o tempo dos ônibus, com corredores especiais. Acho que o uso da trena poderia ter salvo as palmeiras, mas a autoridade truculenta tem prazer em tomar medidas radicais antipáticas.
Isso aconteceu uma vez, lá por 1980, na Avenida 84. E a desculpa era a mesma – estabelecer corredor exclusivo para os ônibus. Nestes 35 anos, o que melhorou no transporte coletivo de Goiânia? Abrem-se os corredores exclusivos, mas cadê os ônibus? Os poucos circulantes só transitam superlotados, numa evidência de mau planejamento e prática de usura pelas empresas permissionárias, que só liberam ônibus para que saiam muito cheios dos pontos iniciais.

 Mudo de cena: saio da Avenida 85 e ponho atenção nas falas dos coleguinhas do rádio e da tevê.

Tenho pregado, há anos, que a reforma do Ensino Médio exige fortalecimento da base Fundamental. Falta um pouco do que chamaríamos de "academicismo", os meninos precisam saber mais de música, de poesia e de arte, sobretudo História da Arte, e de uma base de Filosofia. Cansei de ouvir, na Globo e na CBN, ilustres e bem remunerados jornalistas pronunciarem "Charliê"; uns dois dias depois notei que falavam como se as duas palavras – Charlie Hebdo – fossem Charliê Bidô.

Não bastasse isso, os profissionais da dita "imprensa falada e televisada" (morro de rir!) não buscam minimizar seus sotaques de origem; no rádio e na tevê, há que se minimizar o R dito operístico dos paulistanos e o S chiado dos cariocas; soam muito antipáticos aos ouvidos gerais.

Mas o que fazer? Uma tradutora a serviço da CBN, em tradução simultânea da fala do presidente francês mudou radicalmente toda a regência em português porque traduzia ao pé da letra o discurso de François Hollande. Sei que existem, no Brasil de hoje, cursos superiores de Tradução, mas como alguém se mete a tradutor se não conseguiu ainda aprender sequer o seu idioma pátrio? Não é preciso conhecermos línguas estrangeiras para detectar os erros de tradução em filmes e livros, mas dói demais ouvir alguém, em rede internacional, pronunciar um Português totalmente ininteligível.

Isso me incomoda tanto quanto os comentaristas gagos do rádio. Também sobre o atentado em Paris, ouvi, por longos minutos, um comentarista oficial de péssima voz e pronúncia pior ainda a interpor um prolongado "éééé" entre uma e outra palavra. E são muitos os âncoras que interpõem "aí" em suas falas, como uma "muleta" insuportável para o ouvinte mas, parece-me, estimulada pelos diretores.

A ignorância impõe, com truculência de ditadura, coisas assim: a valorização de profissionais mal formados ou mal dirigidos e medidas indevidas, impopulares, violentas na paisagem urbana em nome da manutenção da força de um mandatário sobre o qual o povo não omite o arrependimento por tê-lo elegido.

Felizmente, atingi aquele estágio da vida em que o senso crítico se tornou irreversível. Ao longo de quase 52 anos de morada aqui, pude me deleitar com uma das mais belas paisagens urbanas do país, ainda que nosso sítio seja desprovido de belezas naturais. Lamento que um filho da cidade seja o responsável pelo “enfeiamento” do que era belo.

Acadêmico Luiz de Aquino

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