Profissionais descuidados


Acadêmico Luiz de Aquino


Gosto de ouvir rádio e tevê. Principalmente noticiários e entrevistas, estas acerca de arte, economia, política... Realidade, enfim! Mas esse “luxo” tem um preço, e não é barato. Esse custo é ter de ouvir perguntas indevidas ou desnecessárias e conceitos inadequados.

Dia desses, um jovem assustado era entrevistado por um repórter de tevê, também jovem. O rapaz assustado contou que ao deixar o trabalho na padaria, por volta de 20 horas, foi abordado por um sujeito armado que lhe tomou a carteira com pouco dinheiro e documentos e ainda o celular. E o jovem do microfone, o coleguinha foca, perguntou, solenemente: “Mas quem foi que te tomou essas coisas? Foi o ladrão?”.

Na maior rede de tevê do país, os colegas também cometem deslizes imperdoáveis. Numa das últimas edições do Fantástico, o repórter começou mal sua matéria sobre burocracia. Ele se referiu a “um personagem importante – Sua Majestade o Papel”. Só que, em lugar de dizer “Sua Majestade”, ele declamou, enfático, “Vossa Majestade o Papel”. O moço, certamente, passou por avaliação rigorosa ao ser selecionado, mas não sabe distinguir segunda e terceira pessoas na oração.

Em todos os veículos impressos, o uso dos pronomes é feito em flagrante desrespeito às regras da Língua – e os que praticam essas faltas alegam que “mesóclise é pedante”. Mentira: na realidade, esses profissionais não sabem como usá-la. O mesmo cometem quanto à regência dos verbos: “A comida que eu gosto”, onde falta a preposição “de”. Fica-me a impressão de que a pessoa se refere à “comida que eu gosto de cozinhar”.

Ah, na mesma grande TV Globo, Alexandre Garcia e outros medalhões de igual envergadura já se queixaram de quem não diferencia “este e esse” e suas variantes. Mas seus colegas menos (in)formados vivem repetindo o erro, como a personagem Félix, na novela Amor à Vida: “Eu sou o presidente desse hospital”. Nada contra o excelente ator, citei-o por estar em maior evidência, pois a quase totalidade dos atores tropeça em coisas assim.

Virou moda dizer (isso é de repórteres e de âncoras): “Estava desaparecido havia três dias”. Incomoda-me os dois verbos articulados no passado, quando a flexão “há dias” já exprime passado. Ainda que alguns defendam como certa (?), a expressão soa ruim e pode bem ser substituída por alguma outra que exprima o mesmo. Mas o que mais me intriga são as referências a margens de rios, lagos e rodovias.

Para lagos, a melhor expressão é orla. Reservemos margem/margens para rios e rodovias. Mas citar um posto de combustíveis “localizado às margens da Rodovia Tal” não é certo. O posto está mesmo em uma das margens, ou seja, “à margem da rodovia”. Se nos referimos, por exemplo, à ocorrência de algo que marque as duas margens, como vegetação, barranco ou areial, certamente diremos “às margens”.

A despeito de tudo isso o que critico como práticas errôneas dos profissionais que têm a Língua Portuguesa como sua ferramenta de trabalho – tanto na forma escrita quanto na oral – devo admitir que as falhas começam em casa, nas famílias de menor escolaridade ou convívio com a chamada “língua culta”. Mas a escola tem seu grau de responsabilidade nisso. Os professores têm que ensinar o correto e cobrar o aprendizado. Ou isso, ou responderão pelo crime de má-fé. Talvez até de falsidade ideológica, já que são pagos para ensinar e não ensinam.

Liberar, com diploma e tudo, o aluno que não aprendeu é condená-lo à marginalidade. Esse aluno, quando jogado no mercado de trabalho, será discriminado pelos resultados nos concursos. Os que tiveram melhores famílias, melhores hábitos (como leitura e convívio com as artes) e melhores mestres serão sempre vitoriosos. Eu me sentiria muito mal se meus alunos fossem os eternos reprovados, numa disputa vital em que só os filhos das classes mais abastadas têm chances.

Texto do Acadêmico Luiz de Aquino (Cadeira n° XVII), publicado em: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com.br/2013/11/profissionais-descuidados.html